Autor(a)
Ronaldo Vinhosa Nunes
Conselheiro e Procurador da OAB Niterói
Há momentos na vida em que alguém atravessa a porta de um escritório de advocacia trazendo muito mais do que documentos: traz silêncio, medo e um pedido que nunca se expressa completamente em palavras. É nesse instante, discreto, quase sagrado, que começa o verdadeiro trabalho do advogado. Antes do processo, antes da norma, antes até da estratégia, há um ser humano em busca de alguém que o traduza. Não há função mais antiga, nem mais atual do que essa: ser intérprete da dor alheia.
Piero Calamandrei, com sua lucidez inesgotável, lembrava que o advogado precisa ter o pudor do sofrimento humano. É nessa espécie de pudor que nasce do respeito, não da distância, que reside a grandeza silenciosa da advocacia. Porque, no fundo, o advogado não lida apenas com litígios: lida com destinos. E cada destino pede a alguém que o escute com atenção, quase com ternura, para depois defendê-lo com firmeza.
A sociedade costuma ver no advogado um técnico. Mas há um equívoco nessa imagem apressada, porque o advogado é, antes de tudo, alguém que entra na vida do outro no momento mais vulnerável. Quando tudo parece perder o sentido, é ele quem devolve um caminho. Quando o mundo se fecha, é ele quem empurra a porta. E quando a pessoa já não sabe mais explicar sua própria dor, é o advogado quem organiza, nomeia e transforma esse caos em palavra justa.
Para Calamandrei, o advogado deve atuar como um tradutor, fazendo com que o juiz compreenda as razões que o próprio cliente não soube expressar. Há uma beleza profunda nessa frase: a beleza de quem entende que a advocacia não é espetáculo, mas escuta. Não é exibição, mas presença. O advogado serve para tornar audível aquilo que a vida sufocou.
O que a sociedade raramente vê são as batalhas invisíveis: as horas não cobradas, os conselhos que evitam tragédias, as orientações que curam feridas, que nunca chegam ao papel.
Existe uma advocacia que não aparece nas estatísticas, mas aparece no coração das pessoas. Nela, o advogado se torna, sem nunca anunciar, um guardião da esperança. Não a esperança ingênua, mas a esperança prática, concreta, que diz: “vamos resolver isso juntos”.
Há uma responsabilidade moral que acompanha a profissão. Não a responsabilidade que nasce da lei, mas aquela que nasce do olhar de quem confia em você. É esse olhar que torna o advogado alguém que sustenta não apenas causas, mas pessoas, e, ao fazê-lo, sustenta um pedaço do mundo.
E é por isso que, mesmo em tempos de velocidade, desatenção e desumanização, o advogado continua sendo necessário. Não somente por causa dos processos, mas porque a sociedade precisa de alguém que saiba transformar sofrimento em linguagem e linguagem em justiça. Essa é a costura secreta que impede que a vida das pessoas se rompa.
No fundo, o advogado é alguém que, todos os dias, precisa acreditar que o ser humano merece ser defendido, ainda que ninguém mais acredite nisso. E quando ele se senta diante de um cliente, quando escuta, quando respira fundo antes de redigir a primeira frase, ele faz um gesto que talvez seja o mais importante de todos: ele escolhe ficar ao lado de alguém que estava sozinho.
Há em Calamandrei uma verdade que não envelhece: o advogado é um homem que se comove com as dores alheias. Poucos percebem a delicadeza dessa frase. Ela não descreve uma técnica, mas uma ética. Não descreve uma função, mas uma vocação.
E talvez seja exatamente isso que dá sentido social à advocacia: o fato de que, no meio das confusões do mundo, o advogado é chamado a ser aquele que não desiste das pessoas.
Porque há profissões que mudam processos. Mas há outras que restauram vidas.
E o advogado, quando exerce o seu ofício como deve, realiza algo que ninguém vê, mas todos sentem: ele ajuda a recolocar as pessoas de volta ao eixo da própria vida.
No final das contas, é isso que permanece.
E é por isso que toda vez que um advogado ergue a palavra justa, reafirma silenciosamente que a dignidade humana nunca ficará sem voz.
Por Ronaldo Vinhosa Nunes: Conselheiro e Procurador da OAB Niterói.