Autor(a)
Delegada Tainah Guimarães
Comissão
Direito de Família Bioética e Biodireito da OAB Niterói
A Bioética, como disciplina, busca examinar as questões éticas que surgem no campo da saúde, da pesquisa biomédica e das ciências da vida. O Biodireito, por sua vez, aborda os aspectos legais relacionados à vida, à saúde e à Biotecnologia. À medida que a tecnologia avança e novas possibilidades emergem, o Biodireito desempenha um papel fundamental na regulamentação e na proteção dos direitos individuais e coletivos.
Uma dessas questões se apresenta no momento de fim da vida, quanto aos cuidados paliativos do paciente. Caso esse paciente não tenha deixado diretivas antecipadas de vontade para direcionar os seus cuidados quando inconsciente, normalmente, gera uma tensão entre os familiares. Esse documento é importante exatamente para que não haja discordância do tratamento a ser seguido, pois nele se elege um procurador. Mas sempre há a possibilidade de alguém discordar.
Como se sabe, a Bioética e o Biodireito são disciplinas transdisciplinares, ou seja, conseguem dialogar com várias outras áreas, principalmente com a Medicina. Também é necessário lembrar que este momento é de dor e sofrimento, e não há tempo para judicializar. Por isso é possível, dentro dos Comitês de Ética Hospitalares, adotar uma conduta autocompositiva, se utilizando de advogados experientes, abordando as práticas colaborativas.
As práticas colaborativas têm tido um aumento global significativo. Elas representam uma abordagem não adversarial na resolução de conflitos, que desafia a visão tradicional do conflito e o encara como uma oportunidade para promover a paz social.
Esse método se baseia em uma abordagem multidisciplinar, não conflituosa e extrajudicial para resolver disputas. Promove o diálogo produtivo e respeitoso, incentivando a autonomia das partes e a busca por soluções sustentáveis que possam ser aceitas por todos os envolvidos.
Assim, as práticas colaborativas na Bioética e no Biodireito podem representar um avanço crucial na abordagem de questões éticas e legais complexas que surgem no contexto da Biomedicina e da Biotecnologia. A interseção entre esses campos também exige uma abordagem multidisciplinar e inclusiva, na qual profissionais de diversas áreas contribuem com suas perspectivas e conhecimentos para enfrentar os desafios emergentes.
Desta forma, a colaboração entre profissionais da Bioética e do Biodireito permite uma abordagem mais abrangente e holística para lidar com dilemas éticos e legais. A troca de conhecimentos e experiências entre médicos, pesquisadores, juristas, filósofos, sociólogos e outros especialistas enriquece o processo de tomada de decisões e promove soluções mais equitativas e sustentáveis.
Além disso, as práticas colaborativas na Bioética e no Biodireito também envolvem a participação ativa da sociedade civil, dos familiares, pacientes, grupos de defesa dos direitos humanos e organizações não governamentais. Essa inclusão amplia o debate público e garante que as políticas e regulamentações reflitam os valores e interesses da comunidade.
Nas práticas colaborativas, as partes assumem o controle das negociações, resultando em soluções mais viáveis do que aquelas impostas por um terceiro, muitas vezes representado pelo juiz. Os envolvidos mantêm o controle sobre suas vidas e negócios, trabalhando juntos para alcançar um entendimento que seja satisfatório para todos. Isso é alcançado por meio de uma equipe multidisciplinar e diálogos colaborativos, nos quais o tempo e a individualidade de cada pessoa são respeitados.
No entanto, apesar dos benefícios das práticas colaborativas, também há desafios a serem enfrentados, como diferenças culturais, linguísticas e de valores entre os diferentes participantes, bem como questões de poder e hierarquia. Superar esses obstáculos requer um compromisso contínuo com a comunicação aberta, o respeito mútuo e a busca por consenso.
Em resumo, as práticas colaborativas na Bioética e no Biodireito são essenciais para enfrentar os desafios éticos e legais complexos que surgem não só no contexto da Biomedicina e da Biotecnologia, mas também no contexto societário e familiar. Ao reunir uma ampla gama de perspectivas e expertise, essas abordagens promovem decisões mais informadas, éticas e justas, em benefício da sociedade como um todo.
(Tainah Guimarães – Delegada da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB Niterói)